Mulheres representam 8 em cada 10 diagnósticos de depressão em Goiás

3 de março de 2026 às 18:35

Goiás vive uma crise silenciosa de saúde mental. Dados do INSS de 2024 registram 11.119 afastamentos por saúde mental no Estado, sendo 2.750 por depressão. Já a pesquisa Vigitel Goiás 2025, da Secretaria de Estado da Saúde, aponta crescimento de 28% nos diagnósticos. Em apenas três anos, os registros saltaram de 12,1% da população, em 2022, para 15,5%, em 2025.
O dado mais expressivo está no recorte de gênero: 78,8% dos casos atingem mulheres. O que poderia parecer apenas estatística revela um padrão persistente de sobrecarga emocional e estrutural.
Para a psicóloga clínica Caroline Dias, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Neuropsicologia, os números refletem um sofrimento que muitas vezes permanece invisível. “Depressão não é apenas tristeza. Ela pode se manifestar como falta de energia persistente, perda de interesse, dificuldade de concentração, alterações no sono, culpa injustificada e até pensamentos sobre a morte. Muitas mulheres continuam funcionando por fora, mas estão adoecendo por dentro.”
Segundo a especialista, o adiamento da busca por ajuda é um dos principais fatores que agravam o quadro. Muitas mulheres atribuem os sintomas ao cansaço ou ao estresse cotidiano, seguem acumulando responsabilidades e só procuram atendimento quando o esgotamento já compromete desempenho profissional, renda e autoestima.
Sobrecarga que adoece
A explicação passa por múltiplas camadas. Mulheres frequentemente conciliam trabalho profissional e doméstico, enfrentam pressões relacionadas à carreira, à maternidade e à vida pessoal, além de lidarem com fatores biológicos, como oscilações hormonais ao longo da vida. A combinação de aspectos biológicos, psicológicos e sociais pode evoluir para depressão clínica quando não é reconhecida e tratada.
“O resultado é uma soma de fatores que, sem intervenção adequada, pode evoluir para quadros graves”, alerta Caroline Dias.
Entre os sinais frequentemente ignorados estão irritabilidade constante, dificuldade de decisão, sensação de vazio, perda de esperança, isolamento, alterações no apetite e aumento do consumo de álcool ou comida como forma de compensação emocional. O ciclo tende a seguir um roteiro previsível: pressão contínua, sintomas minimizados, agravamento progressivo e, por fim, o afastamento do trabalho.
Intervenção precoce: o ponto de virada
Apesar do avanço dos diagnósticos, há tratamento eficaz. A Terapia Cognitivo-Comportamental é considerada uma das abordagens mais efetivas, inclusive na prevenção do agravamento dos quadros. “A TCC ajuda a identificar padrões de pensamento negativos automáticos, questioná-los com base em evidências reais e desenvolver comportamentos mais saudáveis. É prática, focada em resultados e pode ser iniciada antes que o quadro se torne grave, explica Caroline Dias”
A Neuropsicologia complementa ao considerar alterações em neurotransmissores como serotonina e dopamina, ampliando a compreensão do impacto da depressão no cérebro. “Quando a intervenção ocorre precocemente, é possível evitar meses ou até anos de sofrimento — e, muitas vezes, o afastamento do trabalho.”
Para a especialista, reconhecer os sinais é um passo decisivo. “Cada mulher que consegue evitar um afastamento mantém sua independência, sua autoestima e sua dignidade. Depressão é uma doença — e é tratável.”
Com diagnósticos em alta e impacto direto na vida profissional feminina, o alerta deixa de ser individual e passa a ser coletivo. A crise pode ser silenciosa, mas seus efeitos já são visíveis nas estatísticas — e na rotina de milhares de mulheres goianas.